Há coisa de um mês e meio atrás, fui reflectir ao "meu" cantinho especial.
Ia a caminho de casa tranquila, como é de costume depois de sair de lá. Estava bem comigo mesma, harmonizada e renovada por assim dizer. Saio da Jubilee Line e vou a caminho da Central Line (a linha vermelha).
Quando vou a descer as escadas, vejo um Senhor ao fundo, sentado no chão.
Conforme o vi, de relance, o meu coração bateu como nunca até então.
Passei por Ele como se nada fosse, para ir para a minha plataforma. Como se Ele não estivesse ali.
Fui o resto do caminho a tremer e revoltada com a minha atitude altiva e desprezante.
Nunca até então me lembro de ter "ignorado" e menosprezado tão friamente um Ser, como foi naquele dia.
Foi como se Ele não estivesse ali. Como se não houvesse uma gota de humanismo ou empatia em mim.
Odeie-me e revoltei-me com a minha falta de sensibilidade.
Mês e meio depois, novamente a descer as mesmas escadas para entrar na plataforma da Linha Vermelha em (007) Bond Street, vejo outra vez aquele Senhor.
Com o corpo a estremecer, desço o último degrau e procuro a carteira.
Enquanto a procuro, noto que Ele fala baixinho, talvez para não incomodar as pessoas que por ali passam "sem fazer caso".
Tiro as moedas que tenho, aproximo-me e baixo-me, à procura do sítio para as colocar sem nunca o "reparar".
Vejo que o sítio para pô-las é um bolso de um casaco, que Ele usa para esconder as mãos que são inexistentes, deixando só à vista o pulso.
Desta vez, noto que a situação ainda é mais grave do que aquela que pensei. Desta vez encaro aqueles olhos lacrimejantes, vermelhos e sem pálpebras que tentam sorrir; tratando-se dos olhos mais tristes que alguma vez vi.
Tentando não demonstrar tristeza ou pena, sorrio-lhe, desejando-Lhe também a Ele um "good evening". E desta vez, o coração não me dói de revolta, mas sim de solidariedade e compaixão.
Não consigo sequer imaginar como será o seu dia a dia. Não consigo conceber a dor - as dores - que aquele Homem passa diariamente. Não consigo pensar ou calcular a coragem que será, e certamente é, preciso.
Nunca ninguém me impressionou tanto, é verdade. E eu que achava que já nada me surpreendia.
Da próxima vez, pode ser que a minha atitude seja diferente. Ideias não me faltam.
Sem comentários:
Enviar um comentário